Cubanos excluídos do Médicos pelo Brasil relatam dificuldades

Dos 2,5 mil profissionais que ficaram no país após o fim do Mais Médicos, cerca de 500 não entraram no novo programa sancionado no fim de 2019

    • Pietro Otsuka*, do R7
José Cruz/Agência Brasil

Em 18 de dezembro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a MP (Medida Provisória) 890/19, que criou o programa Médicos pelo Brasil, substituto dos Mais Médicos – lançado em 2013 pela então presidente Dilma Rousseff (PT). O antigo programa foi encerrado em 18 de novembro de 2018 e cerca de 18 mil médicos cubanos foram obrigados a escolher: ou voltavam para Cuba, ou seriam considerados desertores pelo governo de seu país.

Mais de 2,5 mil profissionais optaram por permanecer no Brasil sob a penalidade de não poder voltar a Cuba por oito anos. No entanto, impedidos de praticar medicina, foram obrigados a procurar por empregos alternativos. Muitos dos que ficaram aguardavam pela aprovação do Médicos pelo Brasil com a esperança de voltar a trabalhar em sua área.

A realidade, porém, se mostrou diferente para Yulia Molina, Carlos*, Margaret García, Kenia Pérez e outros 500 médicos cubanos que ficaram de fora do novo programa sancionado pelo presidente.

Carlos*, de 47 anos e que não quis revelar seu nome na reportagem, já havia se desligado do Mais Médicos antes do fim do convênio com Cuba. “Muitos haviam fugido (de Cuba) antes. Meses, semanas, dias antes. Não sabemos por que foram adicionados esses requisitos tão injustos. Nos separaram só por uma data. Porque todos tínhamos trabalhado os 3 anos exigidos no contrato. Todos conhecemos como funciona a metodologia de trabalho no SUS”, diz.

Yulia Molina (à direita)

Yulia Molina (à direita)

Reprodução

O médico passou meses desempregado e conta que conseguiu se manter com a ajuda de sua família até conseguir um emprego. “Outros colegas solicitaram ajuda nas igrejas e alguns se juntaram para dividir despesas e assim economizar com aluguel, alimentação, etc. Mas, ainda hoje, há muitos colegas desempregados. Pois muitos moram em cidades do interior onde a oferta de empregos é menor”, relata.

O caso de Yulia, de 34 anos, é ainda mais emblemático. Ela saiu do Mais Médicos dois anos antes de Cuba se retirar do programa, porque estava grávida e corria o risco de dar à luz prematuramente. O governo cubano exigiu que ela voltasse mesmo neste estado delicado. “Foi aí que eu decidi sair do programa. Fiquei no Brasil e estou tentando revalidar meu diploma”, lembra.

Para Kenia Pérez, de 43 anos, o fim do Mais Médicos representou uma mudança drástica não só na vida dos profissionais cubanos que permaneceram no Brasil, mas também na vida da população. “As pessoas estão sofrendo. Não tem serviços de saúde suficientes para ajudá-los a resolver todos os problemas que eles têm. Você sabe que tem epidemias, que faltam especialistas, falta tudo”, diz.

Empregos alternativos

Kenia conta que ela, assim como seus colegas, teve que desenvolver a capacidade de fazer qualquer coisa para sobreviver no Brasil. Ela trabalhou como cuidadora de idosos e olha com bons olhos para esse período da sua vida. “Foi uma experiência muito boa porque aprendi demais. E também aprendi que posso viver e não passar fome. Mas foi muito difícil como um todo. Muito difícil ficar em país diferente, longe da família e ter que fazer tudo o que fizemos para sobreviver.”

Margaret García

Margaret García

Reprodução

Margaret é outra que, após o fim do programa, procurou outras áreas de atuação para fugir do desemprego. Ela chegou ao Brasil em 2014 e, após avaliação, foi designada para trabalhar no Rio de Janeiro, no CMS (Centro Municipal de Saúde) Sylvio Frederico Brauner, no Complexo da Pedreira. “Trabalhei pelo período de três anos, com bons resultados e aceitação da população. Quando estava perto de chegar ao fim do contrato, foi negado o direito de recontratação para os cubanos e decidi ficar no Brasil com a minha família”, conta.

“Após terminar o contrato fiquei desempregada dois anos e fiz bicos como terapeuta holística. Atualmente trabalho no Hospital Estadual Getúlio Vargas como auxiliar administrativa”, diz Margaret.

Após o fim de sua gravidez, Yulia também ficou muito tempo desempregada. Após esse período, ela começou a trabalhar em uma farmácia. “Mesmo que seja relacionada com a minha área, na verdade, não tem nada a ver. Não é a mesma coisa trabalhar em uma farmácia e você ser médica”, afirma.

“Mudou muito minha vida. Não só na parte econômica, mas no pessoal também. Eu passei nove anos estudando, me sacrificando, passando noites sem dormir, dormindo às 2h e acordando às 5h porque tinha uma prova de manhã. A medicina em Cuba não é um presente para qualquer um, você tem que estudar muito, se sacrificar. Não só em Cuba, mas em qualquer lugar no mundo é difícil. Porque você vai trabalhar com seres humanos. A vida deles está nas suas mãos”, desabafa Yulia.

“Não é a mesma coisa trabalhar em uma farmácia e você ser médica”

Dificuldades para revalidar o diploma

Entre diversos motivos para não conseguir revalidar seus diplomas, os médicos ouvidos pelo R7 ressaltam que as barreiras financeiras são grandes empecilhos para voltar à prática da medicina.

“A revalidação do diploma em qualquer lugar do mundo é um exame complexo. Você tem que dominar protocolos do país em questão e estudar pelos livros recomendados pelas instituições reitoras desse processo. Pagar taxas de matrículas, comprar cursos ou livros para estudar. Não é um problema que pode ser resolvido em semanas”, explica Carlos*.

Além disso, Carlos lembra que um dos problemas existentes para revalidar o diploma é a interferência de Cuba. “Todos temos problemas com a documentação docente porque Cuba nos castiga negando os documentos docentes aos médicos que fogem. Precisamos da ajuda do governo e do Ministério da Saúde para estabilizar nossas vidas por um período breve até fazer a revalidação do diploma”, diz.

O médico de 47 anos também ressalta que os exames para revalidação do diploma estão parados. “A última edição corresponde ao ano de 2017. Mas, naquela época, quando a gente ainda estava no Mais Médicos era proibido para os cubanos fazer a matrícula para o exame”, conta. No entanto, ele destaca que a proibição se deu pelo governo de Cuba, e não do Brasil. “Alguns colegas tentaram, mas com risco de serem descobertos pelos chefes cubanos. Outros fizeram a prova em outros estados, onde os chefes eram outros. Ou seja, com menor possibilidade de serem reconhecidos”, explica.

“Cuba nos castiga negando os documentos docentes aos médicos que fogem”

“Nós existimos”

Para Kenia, os cerca de 500 profissionais cubanos que permaneceram no país e não entraram no Médicos pelo Brasil estão sendo objetos de política. “Se só entraram (no novo programa) os que estavam trabalhando quando foi encerrado o contrato com Cuba, então podemos ver que é político. Como forma de atingir o governo cubano. Se fosse feito de uma forma imparcial, eles incluíam a todos nós, porque eles sabem que ficaram mais médicos no Brasil do que os dois mil que eles incluíram (no Médicos pelo Brasil), somos mais. São 500, 600 médicos que foram excluídos”, relata.

“Eles vão precisar dos nossos serviços. Nós estamos dispostos a estudar para o Revalida, a trabalhar onde for preciso, mas achamos que isso é um tipo de ofensa. Porque também somos médicos, somos bem formados, temos nossos diplomas e fomos os primeiros a chegar ao Brasil para trabalhar. Então acho que temos os mesmos direitos que os demais”, desabafa Kenia

“Nós queremos que saibam que nós existimos. Quando foi falado que os médicos cubanos não queriam ficar no Brasil, pode até ser que não sabiam que tinham muitos médicos que ficaram. Que inclusive romperam com o governo cubano para ficar aqui. Nós queremos que nos conheçam, que reconheçam que existimos, que estamos aqui”, completa Yulia.

Ministério da Saúde

Em nota, o Ministério da Saúde diz que está organizando a estrutura necessária para seleção e contratação dos profissionais que atuarão no programa Médicos pelo Brasil.

Sobre os profissionais cubanos, a pasta afirma que o caso está sendo estudado diante da nova lei.

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