Funcionária contou que recebeu convite indevido de um ex-vice-presidente do banco durante viagem a trabalho

Porto Velho, RO - A cúpula da Caixa Econômica Federal sabia de relatos de assédio sexual envolvendo dirigentes do banco ao menos desde 2020 —dois anos antes do início da investigação do MPF (Ministério Público Federal) contra o ex-presidente Pedro Guimarães.

Em julho de 2020, uma funcionária da empresa procurou a então vice-presidente de Pessoas Girlana Granja Peixoto para contar que tinha se sentido assediada pelo ex-vice-presidente Celso Leonardo Barbosa em uma viagem do programa Caixa Mais Brasil a Goiás.

Pelas informações obtidas pela Folha, Barbosa teria insistido com convites inadequados a essa mulher durante a agenda.

De volta a Brasília, ela levou seu relato sobre o episódio para Girlana, que já tinha sido corregedora na Caixa —ela deixou o cargo em novembro de 2019. A ex-vice-presidente decidiu, então, procurar Pedro Guimarães para tratar do assunto, mas não houve qualquer consequência.

De acordo com pessoas ouvidas pela reportagem, Girlana argumentou que procurou o presidente do banco por entender que ele era o superior hierárquico e deveria tomar medidas sobre o caso. Segundo essas fontes, o nome da funcionária não teria sido revelado nessa conversa.

Outras pessoas do banco, no entanto, criticaram a decisão tomada pela ex-vice-presidente, por entenderem que a servidora que se sentiu assediada poderia ficar exposta. Girlana saiu da vice-presidência de Pessoas em abril de 2021.

Barbosa é amigo de longa data de Guimarães e um de seus maiores aliados. Ele ingressou na Caixa em janeiro de 2019 como assessor estratégico da presidência e tornou-se vice-presidente em março do ano seguinte. Barbosa era tido como o número dois do banco e frequentemente substituía Guimarães no comando da empresa.

Por meio da assessoria de imprensa, Guimarães afirmou desconhecer o caso. "Pedro Guimarães não conhece essa história. Nunca foi informado de nada parecido", disse. Girlana Granja Peixoto e a defesa de Barbosa não quiseram se manifestar.

Barbosa renunciou ao cargo de vice-presidente de negócios de atacado da Caixa depois que as denúncias de assédio sexual contra Guimarães vieram à tona. Guimarães deixou a presidência em 29 de junho.

Em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, uma funcionária da Caixa acusou o ex-vice-presidente de Negócios de atacado de ter acobertado abusos cometidos por Guimarães na instituição. Segundo a servidora, Barbosa vigiava as mulheres que não cediam aos assédios do então presidente do banco.

De acordo com a funcionária, que preferiu não ser identificada, as mulheres "marcadas" pelo ex-presidente eram subordinadas a Barbosa, que tentava acobertar os casos. Ela diz que o executivo fingia acolher as mulheres que resistiam aos assédios de Guimarães para monitorar se havia o risco de denúncia por parte dessas servidoras.

As acusações de assédio sexual e assédio moral na Caixa estão sendo investigadas pela Procuradoria da República no Distrito Federal. O MPT (Ministério Público do Trabalho) e o TCU (Tribunal de Contas da União) também iniciaram procedimentos para averiguar o que acontecia no banco sob Guimarães.

O ex-presidente da Caixa Econômica Pedro Guimarães - Pedro Ladeira - 1.jun.22/Folhapress

Após a saída de Pedro Guimarães, o MPT pediu à Caixa informações sobre "a denúncia de que o sr. Celso Leonardo Barbosa causaria 'temor' às mulheres que trabalham no banco, levando a crer que as denúncias de assédio também se estenderiam ao referido gestor".

O Ministério Público do Trabalho também cobrou do banco dados sobre eventuais denúncias apresentadas internamente contra Barbosa e Guimarães, além dos casos de assédio sexual recebidos contra qualquer funcionário desde 2019 —ano em que Guimarães assumiu a presidência.

Na carta em que formalizou o pedido de demissão, Guimarães negou as acusações, disse ser alvo de "rancor político em um ano eleitoral" e de uma avalanche de "notícias e informações equivocadas".

O ex-presidente da Caixa era um dos nomes mais próximos de Jair Bolsonaro (PL) no governo e um participante frequente das lives do chefe do Executivo.

A Caixa tem afirmado que "existem apurações internas em andamento, em paralelo às que estão sendo feitas pelos órgãos de controle". O banco também ressalta que o Conselho de Administração determinou a contratação de empresa externa e independente para verificar todos os casos.

As denúncias contra Guimarães apontam, entre outras coisas, toques indesejados e convites inapropriados. À Folha, uma funcionária do banco disse que os assédios aconteciam diante de todos, dentro e fora da instituição.

A mulher, que pediu para ter o nome preservado por receio de retaliação, afirma que ficou em choque depois que Guimarães a puxou pelo pescoço e disse que "estava com muita vontade" dela.

Fonte: Folha de São Paulo