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A atração de investidores estrangeiros para o Brasil, cortesia dos juros altos após sucessivas altas da taxa básica de juros (a Selic), está aumentando o fluxo de investidores estrangeiros para o País e ignorando a crise geopolítica entre Rússia e Ucrânia. Com isso, o dólar está em queda livre desde o início de 2022. Nesta quarta-feira, 23, a moeda americana opera mais uma vez em queda. Por volta das 11h, o dólar furou a "barreira psicológica" de R$ 5 pela primeira vez desde julho de 2021, chegando a R$ 4,9995. Depois disso, o dólar vem se mantendo a R$ 5, com a volatilidade das bolsas em Nova York. O volume de negócios está mais forte.

O dólar já abriu pressionado pela tendência de queda no exterior com a melhora do apetite por ativos de risco. E desceu mais depois sob influência das notícias locais, como o forte IPCA-15 de fevereiro, que deve exigir novas altas da Selic, aumentando a atratividade do País, e a arrecadação recorde da Receita Federal em janeiro, apoiando alívio fiscal. As projeções do Banco Central para fluxo mensal também são de forte entrada para Brasil, tanto em investimentos diretos como para aplicações financeiras, induzindo ainda o movimento de redução de posições cambiais no mercado futuro.

"Os investidores estrangeiros estão vindo para cá, atraídos pelos juros altos, e ofertas secundárias de ações na Bolsa ajudam também, além de papéis de algumas empresas ainda com preços atrativos", afirma o responsável pela área de cambio da Terra Investimentos, Vanei Nagem.

Segundo o estrategista Jefferson Laatus, do grupo Laatus, o IPCA-15 acima do previsto ajuda na ampliação da queda do dólar, porque indica que o ciclo de alta da taxa de juros não está perto do fim. Com a Selic mais alta, estrangeiros devem trazer dinheiro ao País em busca de ganhos maiores. Segundo ele, os dados do setor externo anunciados pelo Banco Central mostram entrada de moeda estrangeira, tanto para investimentos como para aplicações financeiras, o que também dá fôlego ao movimento de redução de posições cambiais no mercado futuro.
Efeito das commodities

A alta dos preços das commodities, que subiram 13,5% em dólar entre a virada do ano e meados deste mês, também ajuda a explicar o fortalecimento da moeda brasileira em relação ao dólar nesse período, segundo o economista Lívio Ribeiro, pesquisador associado do FGV/Ibre. Por meio de um modelo, ele acompanha os fatores determinantes da cotação das moedas. Funciona assim: quando o preço das matérias-primas aumenta em dólar no mercado internacional, países exportadores de commodities recebem mais divisas pelas vendas externas, e a sua moeda se valoriza.

Esse movimento vinha acontecendo com o Brasil e outros países exportadores de matérias-primas. Mas, nos últimos dez dias, o Brasil se destacou em relação a seus pares, observa o economista. E o movimento de perda de valor do dólar em relação ao real se acentuou, porque também o diferencial dos juros, hoje em 10,75%, atraiu forte entrada de recursos externos. Cerca de metade da desvalorização do dólar em relação ao real acumulada neste ano ocorreu só neste mês.

“A entrada de capitais neste ano por meio de investidores em Bolsa e as entradas de divisas relacionadas a exportações acabaram pressionado o dólar para baixo”, afirma Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior.

O dia é positivo para o petróleo, o que favorece as ações de Petrobras (ON +0,30%, PN +1,75%), enquanto outra gigante das commodities, Vale (ON), cede terreno, em baixa de 1,52%, assim como as ações de siderurgia (CSN ON -4,09%, Usiminas PNA -2,92% e Gerdau PN -3,58%), com o mercado ainda muito atento a iniciativas do governo chinês para conter o que considera como especulativo na formação dos preços no setor.

Apesar desse cenário favorável, especialistas avaliam que a queda do dólar tem fôlego curto. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que esse cenário parece não ser sustentável e que o câmbio não deve ficar nesse patamar ao longo do ano. “Há espaço para depreciação do real por causa do riscos eleitorais que devem aparecer à frente.” José Augusto de Castro, presidente da AEB, lembra que as projeções do mercado ainda apontam para o câmbio a R$ 5,50 no fim deste ano.
Bolsa

Um quadro binário norteou o Ibovespa na primeira parte dos negócios, com o índice passando a renovar mínimas no começo da tarde, caindo para a faixa dos 112 mil pontos, após subir a 113 mil pontos. A tranquilidade externa após sanções impostas por Estados Unidos à Rússia serem consideradas brandas pelo mercado ajudou na alta mais cedo. No entanto, a cautela prossegue e ganhou mais força após a Ucrânia afirmar que só tem reforçado suas defesas por causa das ameaças e ações da Rússia. O país começou a evacuar sua embaixada em Kiev nesta quarta-feira, enquanto a Ucrânia pediu a seus cidadãos que deixem o território russo. De olho na cena geopolítica, os índices de ações de Nova York passaram a cair.

Após a recuperação pontual do dia anterior, o Ibovespa volta a terreno negativo nesta quarta, com ganho em apenas uma das últimas cinco sessões, desde que se acirrou a aversão a risco em torno da situação geopolítica no Leste Europeu. Às 14h29, a referência da B3 cedia 0,22%, a 112.637,91 pontos, ainda perto da mínima renovada nesta última hora, a 112.264,35 pontos. Em Nova York, as três referências também renovaram mínima do dia, com as perdas variando entre 0,42% (Dow Jones) e 0,93% (Nasdaq) na sessão.


Fonte: O Estadão
Texto:Altamiro Silva Júnior e Silvana Rocha