Bolsonaro erra ao se alinhar aos EUA contra o Irã, diz clérigo brasileiro

Xeque Rodrigo Jalloul diz que “falta inteligência” na estratégia do governo do Brasil, mas não prevê riscos iminentes à segurança nacional

Por Luís Lima – 

Dias depois do ataque, o Itamaraty expressou em comunicado apoio aos americanos na luta contra o “terrorismo” e se colocou à disposição para ajudar nos esforços para evitar uma “escalada de conflitos”. O alinhamento aos EUA na escalada de tensão contra o Irã é definido por Jalloul como um “erro” e “falta de inteligência”.

“O governo Bolsonaro não está sendo diplomático e não age de acordo com a democracia e a forma de pensar do povo brasileiro, que é pacífica. Falta informação e cultura”, critica o clérigo, em entrevista a VEJA por telefone.

Na avaliação de Jalloul , a posição do Brasil no conflito representa um retrocesso diplomático e pode trazer impactos econômicos, já que o Irã  é um importante comprador da carne bovina brasileira, além de outros insumos, como milho, soja e açúcar. Não prevê, no entanto, riscos iminentes à segurança nacional e afasta a possibilidade de o Brasil entrar em uma espécie de “lista de inimigos” de Teerã. “Seria exagero. (…) Considerar o Brasil como um alvo (de guerra), até então, não vejo possibilidade”, diz.

Confira os principais trechos da entrevista.

Depois do assassinato do general Soleimani, o Itamaraty divulgou um comunicado em que expressa apoio aos americanos e se coloca disposto a ajudar para evitar uma “escalada de conflitos”. Como recebeu a posição do Brasil?

É um erro e uma falta de inteligência. O governo Bolsonaro não está sendo diplomático e não age de acordo com a democracia e a forma de pensar do povo brasileiro, que é pacífica. Falta informação e cultura. Apesar de ter sido eleito democraticamente, Bolsonaro tem sido uma decepção, inclusive para seus eleitores. É desprovido de conhecimento e preparo. Usa o pessoal e traz ao profissional. Quer se igualar a Trump, mas esquece que os EUA têm bala na agulha, dinheiro e poder, para assumir seus erros. O Brasil está sendo entregue de bandeja aos americanos.

Nos negócios, que consequências o Brasil pode sofrer como reflexo da tensão entre EUA e Irã? 

Há uma perda grande no comércio para o Brasil com países árabes para ficar ao lado de Israel, que compra o mínimo, em termos comparativos. O Irã, até então o terceiro maior comprador de carne bovina do Brasil, também compra grãos, como milho e soja, e açúcar. Fiscalizava frigoríficos para o governo iraniano no Brasil e lembro que há quatro anos, em São Paulo, havia 33 frigoríficos trabalhando ativamente, todos os dias, produzindo para o Irã. Cada um havia cerca de 700 funcionários em uma linha de produção. Há um impacto econômico potencial sim.

O Brasil pode entrar para uma “lista de inimigos” do Irã?

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e os principais comandantes militares do país prometem forte retaliação contra os EUA. No momento, 13 cenários são considerados. O que seria uma resposta contundente e à altura?

A princípio, é a retirada das tropas americanas de todo o Oriente Médio. Os EUA perdem muito com isso, porque os americanos lucram com o petróleo que exploram na região, e também com as guerras. O armamento do Estado Islâmico (EI) que o general Soleimani combateu, muitas vezes, era americano. O pretexto inicial era a acusação de que Saddam Hussein tinha armamento nuclear para atacar o mundo. Saíram e voltaram com a “desculpa” do EI, criada pelos próprios americanos. Hoje em dia não tem mais motivo para as tropas americanas estarem na região. O maior castigo, segundo o próprio líder supremo, é ter que deixar o Oriente Médio. Significaria uma primeira grande derrota.

Mas é suficiente? Se não, o que seria uma vingança adequada? 

Acredita no risco iminente de uma guerra entre EUA e Irã? 

Acredito que, por parte dos iranianos, a princípio, não. Os iranianos teriam força para atacar os americanos no Iraque. Não o fizeram, porque os EUA são protegidos por grandes organizações mundiais, mesmo depois de um ataque terrorista como este. Já o Irã, se jogar uma bomba, “é um país terrorista”. (…) O governo iraniano diz que se quisesse atacar já teria atacado. A intenção não é atacar, e, sim, uma guerra de inteligência. Não se pode agir pela emoção, apesar da cobrança da população iraniana nas ruas.

Pelo menos 50 pessoas foram mortas e 213 ficaram feridas no que seria hoje o funeral de Soleimani. Nesta terça-feira, houve uma grande manifestação em diversas cidades do Irã. O povo iraniano está mais unido? 

Como avalia a situação do general iraniano Esmail Ghaani, que substituiu Soleimani? 

Tem a mesma posição, uma grande experiência, e um ponto a mais: terá a liberdade em atuar um pouco a mais do que o Soleimani na região devido à periculosidade já demonstrada pelos americanos. Deve ter autorizações para agir sem a autorização do líder supremo.

Qual é o entendimento da comunidade iraniana que mora no Brasil sobre as motivações do assassinato? 

Foi uma tática intimidatória, uma demonstração de força  Os EUA tentaram ganhar referência para mostrar que não têm medo dos iranianos e estão prontos para atacar. (…) O general Soleimani representava o controle do Oriente Médio. Era quem dava equilíbrio e segurança à região. Se não fosse ele, Israel já teria exterminado o povo palestino, invadido boa parte do Irã, Síria e Iraque, por exemplo.

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